sábado, 29 de julho de 2017

Derrubando a tese que o som do vinil é melhor


Você provavelmente sabe que os LPs de vinil estão desfrutando de uma incrível regeneração de interesse. Não que ele tenha morrido em muitos dos círculos que eu encontro. Pelo contrário, na verdade. Já que este é meu primeiro artigo para o High Fidelity Report, e a maioria dos autores – e provavelmente a maioria de seus leitores – são vinilófilos, eu achei que seria uma boa ideia irritá-los. Só que não!

Mas eu quero mesmo dizer algumas coisas que podem deixar alguns leitores descontentes. Então aceitem isso como um compartilhamento de uma ideia.

Por que eu me irrito

Em minhas viagens, comparecendo e participando de feiras, eventos de representantes e incontáveis sessões, incluindo aquelas datando de mais de 35 anos atrás, eu ainda estou para encontrar um único toca-discos que eu achasse que estivesse calibrado tão bem quanto possível. Isso mesmo, eu nunca ouvi um que eu achasse que estivesse reproduzindo a música em toda sua plenitude!

A má notícia é que todas elas poderiam ser melhores. Alguns aparelhos só precisavam de um pouco de ajuda – e, infelizmente, alguns precisavam de muita. A boa notícia é que – pelo menos recentemente – não se precisa de muito para efetuar uma melhoria. Quando eu tive e oportunidade de experimentar, sempre acabou sendo o caso de eu poder fazer o equipamento reprodutor de vinil soar melhor. E em muitas ocasiões, não demorou muito par afazê-lo. Talvez seja por isso que eu me irrite quando vejo audiófilos afirmando que seus toca-discos soam tão bem. Eles podem soar bem, mas eles estão tocando no nível que poderiam estar? Provavelmente não.

O Vinil – vivo ou apagado? – uma dúzia de dilemas

Para ser justo, quem é que sabe como o nosso toca-discos de vinil deve soar? A verdade é que nenhum de nós tem essa informação, e [com algumas exceções], isso pode incluir o engenheiro de masterização.

1] A maioria de nós se gaba de ser puristas que jamais conectaria um equalizador – analógico ou digital – a nossos equipamentos. Eu não consigo me lembrar de qualquer audiófilo respondendo SIM a essa pergunta: “Você usaria um equalizador de faixa plena em seu sistema?” Ainda que toda vez que toquemos um LP, o som passe por não um, mas dois níveis de equalização! Primeiro, a curva de masterização estabelecida pela RIAA é imposta ao próprio LP, e daí devemos tocar o LP através de uma fase pré-amplificadora em fono que contém [espera-se que sim] a equalização da imagem espelhada para nos retornar esse sinal ‘sem curva’.

Essa situação pressupõe que curvas projetadas com precisão por esse espelho [gravação e reprodução], que são, verdade seja dita, menos frequentes do que possamos imaginar. Gravadoras diferentes introduzem ênfases levemente distintas. Antes, as gravações pré-RIAA usavam suas próprias curvas de equalização ‘da casa’. Então temos dois níveis da repudiada equalização, e eles podem não ser tão apuradamente equalizadas para algumas de nossas gravações, pra começar.

2] A maioria dos audiófilos presta atenção quando vê um desenho que conseguiu ‘burlar’ com um estágio a mais de ganho, contudo, por algum motivo, nós damos ao estágio adicional do fono com ganho relativamente alto uma passagem. Não obstante, se estivermos usando cartuchos de bobina móvel, então pode ser que queiramos comprar um pré-amplificador fono de alta qualidade. A mesma questão da equalização, mesmo ganho exigido, soque agora apresentamos ainda mais cabos e conexões à equação. Claro, isso vai totalmente ao que atestamos acreditar que seja o melhor – menos fases de ganho, menos conexões e cabos, mas, hey, isso é analógico, então esquece!

3] Você nunca verá uma menção à equalização variante nas frequências altas à medida que você chegar mais para o centro do LP. Em outras palavras, as diretrizes exigidas de corte do vinil podem precisar de uma sutil [ou por vezes severa] mudança nas frequências mais altas à medida que se reproduz os sulcos menores.

4] Infelizmente, nenhum avanço na engenharia ocorreu a ponto de reduzir significantemente a distorção dos sulcos de menor circunferência – isso simplesmente faz parte do vinil.

5] Você sabe com certeza que nenhum cartucho fono soa igual a outro, não sabe? A pergunta é: esse que você possui é o melhor da linhagem dele? Você já o comparou com os outros cartuchos do mesmo fabricante e com os da mesma linha? Só to perguntando… ☺

6] A espessura variante dos LPs significará que você por muitas vezes não estará os reproduzindo no SRA [‘Stylus Rake Angle’, o ângulo no qual o braço, cartucho e agulha devem estar alinhados perpendicularmente ao disco sendo tocado] otimizado. Você vai reajustar a cada disco diferente que ouvir, ou simplesmente viver com a degradação resultante da qualidade do som?

7] Como alguém que já fez centenas de gravações master, tanto em analógico 30 IPS como digital, dizer que LPs analógicos reproduzem a música com mais poder é como eu dizer que eu nunca ouvi um master comparado ao LP comercial. A fita master faz com que o LP soe defeituoso – sem dinâmica, tons ou presença. Nenhum toca-discos – não importa a que preço – pode preencher a lacuna inerente entre a fita master e o LP masterizado. Ela é ENORME – e lembre-se que tal comparação foi feita com o uso de um equipamento corretamente calibrado.

8] Hoje em dia, qualquer um que esteja disposto a trabalhar e gastar para tocar discos de vinil deveria ter se educado para executar apropriadamente os aspectos mecânicos básicos de ajuste seu toca-discos. E agora, há um grande número de ferramentas úteis que tornam o aspecto mecânico da tarefa viável. Quando eu menciono que ainda encontro toca-discos que deixam a desejar, raramente é por causa do aspecto mecânico do ajuste – overhang [a distância angular entre o pino central e o ponto de suspensão da agulha], o azimuth, etc. Isso é uma boa notícia. O único aspecto mecânico que ainda pode ser questionado de vez em quando é o isolamento do toca-discos.

9] Outra questão mecânica que pode às vezes vir à tona seria a taxa variante de momento de inércia do contrapeso e do cartucho [quando tal opção estiver disponível].

10] As áreas que parecem se beneficiar consistentemente de um pouco mais de trabalho são a carga do cartucho fono, a força de tração vertical, VTA/SRA, e anti-derrapagem. Eu NÃO acho que medidores possam desempenhar essa tarefa – você precisa OUVIR aos efeitos de todos eles. E eles são todos interligados – assim como é a temperatura da sala.

11] Por fim, se o sistema principal não foi configurado para ‘encher a sala’, como é que o amante do vinil pode saber se os ajustes dele ou dela estão indo no rumo certo? Isso me lembra dos clientes do [sistema de avaliação e ensino de avaliação de diferentes instalações de equipamento de reprodução fonográfica/ RoomPlay Reference, que chegam aqui, e a determinado momento, pedem para ouvir seus CDs, porque ‘eles conhecem’. Em minha opinião, eles provavelmente NÃO conhecem, mas eu tento não dizê-lo – pelo menos não de cara.

12] Eu preciso mencionar o ruído de superfície dos LPs?

Uma última consideração

Quando um sistema digital é feito do modo certo, ou pelo menos muito bem feito, a música pode fluir e dedilhar as cordas do seu coração. Apesar de eu amar ouvir aos meus vinis, eu não o faço há muitos anos, preferindo, por vários motivos, ir atrás de fazer meus próprios arquivos digitais na minha mídia escolhida. A maioria dos ouvintes conclui – e frequentemente cita – que uma razão pela qual o som é tão audível é que eu estou tocando arquivos digitais de alta resolução, mas não, é material 16/44.1. Isso geralmente é uma grande surpresa para eles. Ninguém nunca se queixa ou expressa desejo de ouvir vinil. Talvez seja apenas um público incomumente educado, vai saber.

Tendo dito tudo isso, eu queria que não houvesse essa divisão entre as fontes, mas ela é bastante real. Felizmente, parece estar se dissipando. E talvez isso seja saudável, se nos mantiver debatendo. Seria bom se alguns audiófilos parassem e pensassem antes de declararem que sua reprodução de discos é o meio superior/mais preciso/de maior resolução. Talvez seja para eles, mas, hoje em dia, não o é, necessariamente, para os outros.

A atual oferta de música digital vale o esforço de explorá-la agora, até pelo razão de arquivar seus amados LPs analógicos. E sim, em alguns casos, pelo som melhor. Pronto, falei.

VIA WHIPLASH em 2014.