quinta-feira, 13 de julho de 2017

Antes foi o samba, depois o rock, agora é o funk: o preconceito não desiste de ser chato


Bom Dia!

Hoje é Dia Mundial do Rock.

Evidentemente, ao longo deste dia os canais desta Confraria farão diversas alusões a esse sessentão que tanto amamos.

Porém não posso deixar de começar abordando um assunto que na verdade é ridículo, mas que um cidadão de Guarulhos na Grande São Paulo resolveu que seu gosto pessoal deva virar Lei.

Trata-se da infortunada Sugestão Legislativa 17/2017 que sugere a "criminalização do funk como crime de saúde pública às crianças, aos adolescentes e à família”.

Claro que gosto pessoal é livre. Eu mesmo detesto os estilos com os rótulos de "universitários" e esse próprio funk feito no Brasil de uns tempos para cá.

Porém eu já gostei e curti muito na sua origem, que se deu lá nos tempos do boom do Miami Bass e do funk eletrônico, quando Afrika Bambataa estourou com seu enorme sucesso "Planet Rock" e literalmente dominou as paradas, principalmente a carioca, onde eu morava.

Com o tempo o morador humilde das periferias cariocas foi tencionando ter sua voz e expressão aos microfones e a coisa toda foi se regionalizando, pode-se discutir a qualidade mas não que seria um processo inevitável, necessário e legítimo.

Acha ruim? Ou você sugere melhorias, tente contribuir de alguma forma ou simplesmente abstenha-se de ver e ouvir e abstraia. Campanha para proibir? Ora, convenhamos...

No início do século passado, o Samba sofrera com o preconceito das "fidalguias fluminenses" por representar a expressão cultural dos negros recém-libertos que se alojaram nas favelas.

Na segunda metade do mesmo século, o rock and roll fora demonizado por toda uma gama conservadora e retrógada da sociedade moralista.

Sobre tudo isso, com vasta inspiração e sobriedade, escreveu Tiago Jardim em seu site JUDÃO. Texto também publicado na COLLECTORS ROOM.

Leia o texto na íntegra:

O rock ensina o quão imbecil é este lance de proibir o funk

O ano era 1985. Mês de setembro. Grandes astros do mundo da música foram convocados ao Senado dos EUA para falar em uma audiência pública, para que tudo servisse de subsídio para um possível projeto de lei. O objetivo? Calar um gênero musical considerado “devasso”, com “letras ofensivas demais”, uma verdadeira afronta para as pessoas de bem, pela moral e pelos bons costumes.

Este era o cenário durante a cruzada do PMRC (Parents Music Resource Center), grupo liderado por Tipper Gore, esposa do então senador Al Gore, contra o rock and roll. Mas bem que poderia servir para descrever o ano de 2017 no Brasil, só que trocando Dona Tipper pelo empresário e webdesigner paulista Marcelo Alonso, morador de Guarulhos, criador do site Funk é Lixo. Ele não é político... mas bem que podia ser. “Posso entrar para política para defender nossos valores morais, que estão sendo destruídos”, afirma ele, em entrevista para a revista IstoÉ.

Ele é o responsável pela Sugestão Legislativa 17/2017, cujo objetivo é a “criminalização do funk como crime de saúde pública às crianças, aos adolescentes e à família”. Basicamente, o que acontece: no portal e-Cidadania, qualquer cidadão pode entrar e registrar uma sugestão de lei. E se o cara conseguir, em até quatro meses, 20 mil assinaturas apoiando a ideia, eis que então o texto será oficialmente encaminhado para debate. Foi o que aconteceu aqui. “Lancei e plantei democraticamente a semente de esperança para as pessoas que assim como eu acreditam que esse lixo será destruído”, diz ele, a respeito do tipo de música que é considerado desde 2009 um patrimônio cultural pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Pois bem, eis que o assunto será publicamente debatido, ainda sem data específica prevista para tal, na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado (CDH). O relator será o senador Romário (PSB-RJ), que já convocou para a audiência pública cantores como Nego do Borel, Valesca Popozuda, MC Marcinho e a dupla Cidinho e Doca.

Mas, afinal, quais são os motivos desse cara e seus mais de 20 mil apoiadores para entender o funk como sendo um crime? Com a palavra, o próprio: “O funk faz apologia ao crime, fala em matar a polícia. (...) Os pancadões ou fluxos são arruaças, um quebra-quebra que danifica o patrimônio público, sem contar a falta de respeito para com a mulher, classificando-a como cachorra, cadela, novinha, safada, puta, biscate. Essa turma usa a bunda como cérebro para convencer principalmente as crianças, adolescentes ou a mente em formação”.

ARREMARIA. Meu cérebro deu uma ligeira derretida aqui.

Romário, no entanto, já declarou publicamente ser contra a proposta, dizendo se tratar de um grande equívoco relacionar a ocorrência de eventuais atos criminosos durante os bailes funk com a manifestação musical. Violência, desrespeito ao próximo, atos de vandalismo e até exploração sexual devem ser firmemente combatidos, segundo ele, mas eles acontecem em qualquer aglomeração de multidões, das festas de celebração da Copa do Mundo até o carnaval – que, nem por isso, são sujeitos a qualquer tentativa de criminalização. “Os bailes entretêm a juventude e levam divertimento para uma grande parcela da população, justamente para aquela que já se sente marginalizada pela pobreza e exclusão social”, completa.

Pois bem. Era justamente neste ponto que eu tava esperando o baixinho chegar. Porque nosso simpático habitante de Guarulhos tá precisando urgentemente ouvir a voz das ruas. Tal qual os governantes brasileiros do século XIX, que taxavam aquela música que os escravos dançavam, um tal de samba, como uma afronta à moral e aos bons costumes, considerado crime e sujeito à farta distribuição de bordoadas por parte das autoridades.

Em uma matéria sobre o Seu Jorge e uma entrevista na qual ele falou sobre a presença dos negros no rock, eu disse claramente aqui: “Se outrora o punk pode ter sido a voz das ruas em metrópoles como São Paulo, hoje o rap e o funk falam uma linguagem que conversa muito mais com a realidade desta galera – que o Seu Jorge chama de ‘negros’ porque, vamos ser honestos, os negros infelizmente ainda são mais presentes entre as classes mais pobres deste país (e de muitos outros)”. Captou a mensagem ou quer que eu desenhe?

Na real, prefiro até dar a palavra àquela que, neste debate da CDH, também estará presente e promete ser a nossa versão tropical do Dee Snider, a instituição nacional que atende pelo nome de Anitta. “Desinformados que estão precisando sair do conforto de seus lares para conhecer um pouquinho mais do nosso país”, disparou ela, em um desabafo no Twitter, seguido por uma cadeia de posts.

“Tá tudo ok com o Brasil já? Achei que tivesse coisa mais séria pra se preocupar do que com um ritmo musical que muda a vida de milhares. O funk gera trabalho, gera renda pra tanta gente. Uma visitinha nas áreas menos nobres do nosso país e vocês descobririam isso rápido. Não mexe com quem tá se virando pra ganhar a vida honestamente diante de tanta desigualdade”.

Dias mais tarde, em entrevista no programa Conversa com Bial, ela foi ainda mais fundo, lembrando da sua romaria de duas horas e cinco conduções até poder chegar no trabalho e ver o azul do mar do barquinho de Roberto Menescal e Ronaldo Boscoli: “Eu vim da favela, o lugar chama Morro do Brinquedo. É muito fácil quando você acorda no seu prédio incrível, vendo o mar, na sua escola particular, com o seu motorista, seu segurança, com o seu dinheiro do lanche, olhar para o funk e dizer ‘que música de gente pobre, favelada, mal-educada’. E eles não fazem ideia do motivo das pessoas cantarem aquilo. Precisa ir lá, conhecer a rotina de quem canta”. Ela afirma que se o conteúdo das letras ou das festas não agradam é porque eles cresceram vendo e vivendo aquilo que cantam. “Deem acesso a outros assuntos e eles cantarão sobre eles”.

É importante ainda que se lembre que existem uma série de subgêneros do funk, tal qual acontece no mundinho do rock, todos se diferenciando em termos de temática e melodia daquela escola original que, saída do Miami Bass e do Freestyle, fez nascer o chamado “funk carioca”. Sim, existe o tal do Funk Proibidão, aquele que tem letras que podem exaltar uma vida de crimes, além do tal do Funk Putaria, que dispensa explicações. Mas, vamos combinar, o quanto isso pode ser considerado radicalmente diferente do gangsta rap americano ou o do narcocorrido mexicano? No entanto, o funk não se resume a isso, porque o gênero musical também pode ser melody (aquele que é mais romântico, abusando de batidas eletrônicas e samplers), ostentação (que fala sobre o estilo de vida de carrões, mansões, festas luxuosas), consciente (que lembra mais o rap, falando da realidade sofrida das ruas da periferia). Isso sem falar nas misturas com outros gêneros: funknejo, eletrofunk, pop funk e até o funk rasteirinha, que flerta com o axé e o forró.

É tanta coisa que se torna até bizarro colocar um gênero inteiro dentro de um mesmo balaio. Afinal, metal, punk e southern rock, por exemplo, são tudo a mesma coisa? Mas obviamente que não. Black metal, death metal, thrash metal e power metal são todos primos por parte de “metal”, mas não poderiam soar mais diferentes em todos os sentidos.

E vamos lá, você, querido rockeiro bate-cabeça que tá apoiando a ideia, pensa aí um pouquinho. Traduza pro português as letras de algumas das suas bandas favoritas e me diga se elas não deixam qualquer funk no chinelo. Te dou um exemplo de imediato: "Used to Love Her", do Guns N’ Roses. Vai lá, copia a letra e joga no Google Tradutor. Vai que eu te espero aqui. Pois é, né? Dê uma voltinha pelas canções de toda aquela galera da Sunset Strip, aliás, do Poison ao Mötley Crüe, passando pelo Ratt, Cinderella e demais mestre da farofa por excelência, e depois a gente conversa sobre “putaria”. Quer falar sobre violência nas letras? Escuta o Carcass. Ou talvez Cannibal Corpse. Mas aumenta o volume que é pro efeito ser mais poderoso.

Com tudo isso em mente, já chegou a pensar quanto tempo demoraria, caso esta medida siga em frente, para que apareça uma Tipper Gore tupiniquim desesperada para proibir o rock por aqui também? Aí vai ser um absurdo, né? Porque o que eu não gosto pode ser banido, mas nunca aquilo que eu gosto, tá errado, “cadê a liberdade de expressão”?

Já passamos por isso uma vez na vida. Se precisar de alguém que relembre um pouco de como as coisas eram, basta sentar pra trocar uma ideia com caras como Chico Buarque e Caetano Veloso que eles te contam.

“Tudo mudou e nada mudou. Os ultraconservadores ainda estão lá, tentando dizer o que eles acham aceitável e que o público deve ver ou ouvir”. Quem disse isso foi o Dee Snider. Mas poderia também ter sido a Anitta. Com uma diferença de mais de três décadas entre eles. O mundo gira e a gente sempre acaba voltando pro mesmo lugar.

Oh boy…