sábado, 17 de junho de 2017

Campo Grande Rock City?


Hoje já podemos nos dar ao luxo de ouvir falar sobre a diversidade de opções que a nossa provinciana capital oferece.
Mas isso às vezes não nos soa como o candidato 'x', que durante a propaganda eleitoral afirma que o seu partido apoia a diversidade, excluindo da competição a ideologia dos outros partidos e fazendo-nos admitir que 'diversidade' é um conceito falacioso, com cada indivíduo defendendo ferrenhamente a sua e em choque com as demais?
Mas qual o objetivo aqui, afinal? Com tantas opções na cidade, não seria mais simples se ouvíssemos música e curtíssemos, cada um na sua e em paz? Talvez, se o inconformismo não fosse a maior característica do rock. Só que eu não consigo me satisfazer....
E a julgar pela cena roqueira campo-grandense isso está muito longe de acontecer. Alguns estão curtindo mais que outros, e aqueles não estão interessados nesta discussão em particular.
Ampliando o raciocínio (e o inconformismo), seria correto afirmar que o rock finalmente conquistou seu merecido espaço enquanto manifestação cultural?
Afinal de contas o público cresceu e diversificou (de novo aquela palavrinha danada), e os pequerruchos são contagiados pelas batidas do ritmo na trilha sonora de suas animações favoritas.
Bem, sim e não! Ou, pelo bem da discussão, que infelizmente não se presta a simplificações (muito ao contrário), devemos fazer alguns ajustes na afirmação acima e trocar 'o rock finalmente conquistou seu merecido espaço' por 'o rock CLÁSSICO foi ASSIMILADO'.
É, a solução é complicar ainda um pouco mais, para aqueles que acreditam que o rock é a feliz confluência de uns poucos fatores, como se num belo dia de sol um afortunado jornalista da Rolling Stone, ao caminhar sob a sacada do apartamento de Chuck Berry, e ouvindo-o dedilhar os acordes de Johnny B. Goode num momento de lazer, tivera a presença de espírito e o tempo suficientes para contatar seu colega, produtor da MTV, que registrou o momento para a posteridade.Não, tais fatores pertencem a fases distantes de um gênero musical que lutou muito e ainda luta bravamente pela sobrevivência, contra outros fatores, previsíveis ou inéditos.


A 'novidade' nasceu em solo norte-americano nos anos '50, e foi batizada de rock'n'roll. Seu primeiro declínio não foi motivado pela conversão religiosa de Little Richard ou pelo acidente aéreo de Buddy Holly.
A atitude do Coronel Tom Parker, mentor de Elvis, representava a (des)crença geral sobre o futuro do gênero musical, que o Rei abandonou em busca de uma carreira cinematográfica.
O rock dava seus últimos sinais.
Felizmente, as rádios-pirata puderam captá-los através do oceano. Os anos '60 trouxeram a Invasão Britânica e a renovação do estilo, com The Animals, Herman's Hermits, The Rolling Stones e a maior de todas as bandas: The Beatles!
A longevidade se estabeleceria posteriormente. Do meio para o fim daquela década, o rock atingiria sua fase clássica.
O blues sempre foi, inegavelmente, a raiz predominante. Quando começa a levar-se a sério, o rock passa a situá-lo no centro. Muddy Waters é levado aos grandes palcos pelas mãos dos Rolling Stones. Os três maiores guitarristas da história do rock, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Jimmy Page, são baseados no blues. Muitos de seus maiores sucessos são releituras de clássicos do estilo.
O rock reconhece a si como manifestação artística. Eis a questão!
Assim que a arte passa a se enxergar como tal, ela constrói seus cânones. Logo em seguida passa a desconstrui-los. É um movimento necessário contra a estagnação.
Ao atingir a excelência, o rock começava a caminhar em direção a um maneirismo, excessivamente virtuoso e artificial.
A revolução seguinte traria ecos do rock de garagem sessentista, baseado na surf music. O rock calçava pesados coturnos que o trariam de volta à essência.


Opa, acho que fui longe demais....Mas como assim, longe demais? O punk-rock explodiu em 1976!
Pois é, é que um fenômeno mundial ameaça a sobrevivência do rock. E agora que descobrimos que nem só de uma vertente vive o homem, podemos chamar o demônio pelo nome: O ROCK CLÁSSICO tornou-se hegemônico, ameaçando a sobrevivência de todo o estilo.
Não à toa as bandas que mais se beneficiam dessa hegemonia encontram-se cativas da própria receita de sucesso que criaram. Qualquer inovação fora desses moldes estabelecidos lá nos idos de 1970 pode representar o mais absoluto ostracismo.
Pra ser ainda mais específico, estamos falando de bandas do coração, como Black Sabbath, AC/DC, Iron Maiden, e outras.
Isso tudo pode soar exagerado, afinal de contas os caras estão velhos e ricos, e já receberam o devido reconhecimento. Inclusive, na maioria das vezes eles não têm mais a energia e, mais importante, a NECESSIDADE de se fazer ouvir com tanta urgência.
O grande problema é que o padrão clássico também se impõe aos iniciantes, impedindo-os de fornecer a esse jovem senhor, que já começa a ostentar uma respeitável pança, as ferramentas de adaptação tão necessárias à sua sobrevivência.
E sendo Campo Grande uma capital roqueira de respeito, é forçoso alertar que não, não estamos imunes a esse mal e suas consequências devastadoras!
Todo o cenário aqui se repete microcosmicamente às nossas vistas e o que é pior, em estado de total cumplicidade.
Ou não nos acotovelamos semanalmente para ouvir a apresentação daquela banda de rock clássico ou blues enquanto um estupor mortal nos acomete quando alguém de nosso convívio íntimo nos trai a confiança ousando sugerir 'ver qual é a daquela bandinha' de indie, britpop ou algo inspirado nas infinitas vertentes do rock, como o folk e o psicodélico, ainda que a banda clássica cobre seus quinze ou vinte reais por apresentação e a 'bandinha' saia por cincão ou até de graça?


Recebi a encomenda de trazer à discussão estas pequenas questões, com o propósito exclusivo, é claro, de fomentar mais discussão.
Por esse motivo não dei nome aos bois da tal estirpe clássica, mas gostaria de mencionar alguns dos 'azarões' que se fizeram destacar em minha mente e coração por sua extrema qualidade nas poucas ou única vez em que os pude assistir, geralmente fora do circuito das grandes casas de shows da nossa capital.
No topo dessa lista encontra-se atualmente o Arizona Nunca Mais, power-trio de indie-rock com repertório cem por cento autoral e impecável nos quesitos performance, peso e qualidade musical.
A Franz, cujos integrantes de pouca idade denotam uma cultura musical sem fim, e a riqueza das tessituras vocais remete à excelência sonora de um Simon & Garfunkel.

Vou mencionar aqui também o Lynks, muito embora eles já tenham conquistado algum espaço na cidade, o que não faz deles a exceção à regra já que esse espaço foi conquistado a muito duras penas.

Existem muitas mais, acreditem. Tenho orgulho de dizer que em Campo Grande, se você chutar uma moita, saem dez bandas talentosas esbanjando material autoral de qualidade, o que só acrescenta à urgência do debate.

Por Renato Azambuja, o nosso Dali (Salvador).