sexta-feira, 5 de maio de 2017

Que Arnaldo Antunes continue a nos trazer poesia


Diante de tanta excrescência que assola os versos da música pop nacional com versos do tipo "Tenha Fé no pai que agora o nosso beijo sai", isso sem contar os arranjos e instrumentações paupérrimas, eis que me deparo com estes lindos versos do ex-titã e sempre mago das palavras Arnaldo Antunes, largamente influenciado pela poesia concretista de Augusto de Campos, acompanhado aqui por Edgard Scandurra e Toumani Diabaté executando uma tenra melodia.



Eis os versos de "Que me continua":

"Se ando cheio, me dilua.
Se estou no meio, conclua.
Se perco o freio, me obstrua.
Se me arruinei, reconstrua.

Se sou um fruto, me roa.
Se viro um muro, me rua.
Se te machuco, me doa.
Se sou futuro, evolua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.

Se eu não crescer, me destrua.
Se eu obcecar, me distraia.
Se me ganhar, distribua.
Se me perder, subtraia.

Se estou no céu, me abençoe.
Se eu sou seu, me possua.
Se dou um duro, me sue.
Se sou tão puro, polua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua.

Se sou voraz, me sacie.
Se for demais, atenue.
Se fico atrás, assobie.
Se estou em paz, tumultue.

Se eu agonio, me alivie.
Se me entedio, me dê rua.
Se te bloqueio, desvie.
Se dou recheio, usufrua.

Você que me continua.
Você que me continua.
Você que me continua."