quinta-feira, 6 de abril de 2017

Nightwish - "Endless Forms Most Beautiful"


No espaço rememorando desta semana, trago o brilhante texto de 2015, talvez uma das melhores resenhas escritas por Ricardo Seelig em seu site Collectors Room, que infelizmente hoje se encontra em hiato.

A banda finlandesa Nightwish, da frontwoman holandesa Floor Jansen e do mentalmente frutífero líder Tuomas Holopainen se encontra em merecidas férias após o lançamento do muito bem sucedido álbum "Endless Forms Most Beautiful", de 2015, o primeiro com Floor ao microfone e de sua sequente turnê mundial que inclusive passou pelo Brasil no último Rock in Rio e está toda ela registrada no Blu-ray/DVD "Vehicle of Spirit".

Sobre a evolução da banda e "Endless Forms Most Beautiful", Ricardo Seelig escreveu:

Oitavo álbum do Nightwish, Endless Forms Most Beautiful marca o início de um novo capítulo na carreira da banda finlandesa. E esse capítulo tem nome: Floor Jansen. No grupo desde 2012, a holandesa substituiu Anette Olzon, que, por sua vez, entrou no lugar de Tarja Turunen. Aclamada e elogiada em seus trabalhos anteriores no After Forever (mais) e no ReVamp (nem tanto), Floor encara o maior desafio de sua carreira ao assumir papel de destaque no Nightwish.

Os motivos para isso são muitos. De cara, trata-se de uma banda com uma proporção muito maior que suas experiências anteriores. Quando lançou Once, em 2004, o Nightwish estourou a boca do balão e se transformou na bola da vez, extrapolando o público do metal e ganhando novos fãs em uma popularidade ascendente. Puxado pelo single “Nemo”, o disco vendeu pra caramba em todo o mundo e teve seus vídeos executados à exaustão. Quando parecia que os finlandeses iriam mudar de patamar, veio a bomba: desentendimentos levaram à saída de Tarja, e a coisa ficou em stand-by por um longo tempo.

Três anos, pra ser mais exato. Esse foi o tempo que a banda liderada pelo tecladista Tuomas Holopainen levou para montar novamente seu quebra-cabeça com a chegada de Anette e o lançamento de Dark Passion Play (2007), disco que trouxe uma sonoridade bem mais pop e não foi muito bem recebido. Mais quatro anos se passaram e o Nightwish entrou no eixo novamente com o excepcionalImaginareum (2011), um trabalho pra lá de complexo envolvendo todo um projeto audiovisual e com composições repletas de detalhes. Um disco muito acima da média, e que ocupou de imediato um lugar de destaque no catálogo da banda.

Pra então tudo mudar novamente com a saída (ou demissão, sei lá) de Anette Olzon em meio a uma turnê e a surpreendente e saudada chegada de Floor Jansen. Estreando a nova formação, o Nightwish retomou o melhor de seus dois períodos anteriores graças à imensa versatilidade de Jansen, enchendo os fãs de expectativa quanto a um possível novo disco com a holandesa nos vocais.


E ele veio, finalmente. Endless Forms Most Beautiful é tão pretencioso e megalomaníaco quantoImaginareum, porém um pouco mas agressivo e pesado que o álbum anterior. Temático, o disco traz onze canções com letras inspiradas nos livros do biólogo britânico Richard Dawkins, conhecido pelo seu discurso evolucionista e ateu. Tuomas faz de Endless Forms Most Beautiful - título tirado de uma frase do clássico A Origem das Espécies, do naturalista Charles Darwin - um tratado sonoro em defesa da Teoria da Evolução, alcançando um resultado consistente, belo e, mais uma vez, excelente.

As canções caminham pelas diversas características do DNA sonoro do Nightwish, variando entre faixas mais pop, outras mais pesadas e também aquelas mais complexas e cheias de movimentos e dinâmicas, com estruturas e arranjos que variam do progressivo ao clássico e evoluem em canções impressionantes - o caso mais notório está na última faixa do disco, “The Greatest Show On Earth”, uma obra-prima com mais de 20 minutos de duração.

Dosando com equilíbrio os principais elementos dos dois capítulos anteriores de sua trajetória - os vocais operísticos de Tarja e o contagiante apelo pop do período com Anette -, o Nightwish deu a Floor Jansen a oportunidade de gravar o trabalho mais completo de sua carreira, onde fica claro o quão acertada foi a sua escolha para o posto. Transitando com grande naturalidade entre estes dois extremos, Floor tanto pode soar chiclete e acessível em uma canção como “Élan" quanto pode deixar todo mundo com o queixo no chão ao incorporar uma espécie de soprano para as grandes massas cabeludas, como acontece na já mencionada “The Greatest Show On Earth”. E, no meio disso tudo, ainda mostra toda a delicadeza e sutileza de sua voz em canções como a balada “Our Decades in the Sun”, por exemplo.

Mantendo os elementos étnicos e de world music que sempre estiveram presentes em seus discos, o Nightwish tem outra estreia em Endless Forms Most Beautiful: o multi-instrumentista Troy Donockley, que traz para o jogo sopros, gaitas e outros instrumentos não muito comuns ao rock, enriquecendo a musicalidade e contribuindo decisivamente para o resultado final.

Esbanjando bom gosto e criatividade, soando inventivo e sem medo de experimentar e explorando um tema que é um tabu para uma parcela de seus próprios ouvintes - a visão de Dawkins e a Teoria da Evolução -, o Nightwish prova mais uma vez que o que sempre está em primeiríssimo lugar para a banda é a sua liberdade e visão artística. E é justamente esse ar destemido, esse desejo constante de sair do comum e entregar um trabalho diferenciado, que faz do sexteto liderado por Tuomas Holopainen um ponto totalmente fora da curva quando falamos de rock e heavy metal.

Excelente em todos os níveis, Endless Forms Most Beautiful é um disco único e belíssimo, que não fica devendo nada ao que o Nightwish já gravou e, sobretudo, aponta para um futuro onde as possibilidades são excitantes e infinitas. Com ele, a banda mostra que aprendeu um dos grandes ensinamentos de Darwin: a sobrevivência dos mais fortes. E os finlandeses estão, definitivamente, nesse grupo, prontos para liderar os seus seguidores.