quinta-feira, 2 de março de 2017

Viúva de Lou Reed doou enorme coleção à biblioteca de Nova Iorque



Segundo reportagem publicada nesta quinta-feira pelo "The New York Times", Laurie Anderson, viúva do cantor, compositor e mito do rock Lou Reed, falecido em 2013, doou à Biblioteca Pública de Nova York, uma enorme coleção de papéis, fotografias e gravações — mais de 600 horas de fitas demo e de gravações de shows e mesmo leituras de poesia — que se estende por grande parte da carreira de Reed.

A doação foi anunciada pela Biblioteca na própria quinta, data em que o artista teria completado 75 anos de idade. Ainda segundo o "NYT", o conteúdo será disponibilizado a todos os visitantes da Biblioteca de Artes Cênicas, no Lincoln Center, logo que esteja totalmente catalogado e preparado, o que levará pelo menos um ano.

"Eu realmente não queria que isso tudo desaparecesse em um arquivo em que as pessoas tivessem que usar luvas brancas para consultar. Eu queria que as pessoas vissem o quadro inteiro", disse Anderson, que pensou inicialmentre em disponibilizar o material on-line.

O arquivo oferece vislumbres da vida de Reed como uma figura cultural do primeiro time. Há uma carta de 1993 em que o diretor Martin Scorsese escreve sobre o elenco de um projeto de filme que acabou não dando certo.

Há também a correspondência do cantor com Vaclav Havel, dramaturgo dissidente e presidente da República Tcheca, que ajudou a espalhar o evangelho subversivo do grupo de Reed, o Velvet Underground, nos dias sob o jugo soviético. Depois de visitar Praga em 1990, onde se apresentou com músicos tchecos que conheciam o seu repertório de cor, Reed escreveu a seu novo amigo em um fax: "Eu não poderia ter imaginado essa cena e repeti-la em minha mente."

No meio de tudo, há também resmas de papéis legais e a contabilidade mundana de uma vida na estrada: as notas fiscais de um sanduíche no hotel Hilton de Tóquio e de um tape deck comprado de uma loja de eletrônica em Phoenix. No entanto, mesmo esses detalhes, disse Laurie Anderson, mostram um lado importante de Reed:

"A imagem que as pessoas tinham de Lou era esse cara durão, de jaqueta de couro cantando canções realmente transgressivas. Por outro lado, ele estava guardando todos os recibos da turnê."

Há também, entre a papelada, poemas líricos, poesia inédita e notas extensas sobre o tai chi, a paixão de terra de Reed em seus últimos anos de vida. Há, no entanto, pouca documentação do período no Velvet Underground. Parte desse material pode ter sido perdido ou estar em coleções particulares.

Mas o material que provavelmente mais surpresas trará para fãs e estudiosos, segundo o "NYT", é a coleção de registros em áudio e vídeo. Existem milhares de gravações em formatos que refletem a evolução da indústria da música ao longo de meio século, desde fitas cassete até fitas de áudio digitais e, finalmente, discos rígidos de computador.

As gravações vão até os primeiros dias da carreira de Reed em Nova York, em meados da década de 1960, quando ele estava começando o que se tornaria o Velvet Underground e trabalhando como compositor para a gravadora Pickwick. Uma fita captou Reed tocando uma versão acústica reverente de "Don't think twice, It's alright", Bob Dylan.

Há mistérios nas fitas. Um rolo de gravações do Velvet Underground tem notas manuscritas como "delicioso" e "gasolina" que pode ser do empresário da banda e mito das artes plásticas Andy Warhol, informou Don Fleming, o arquivista que Laurie Anderson contratou para analisar o arquivo antes de entregá-lo à biblioteca. Em maio de 1965, Reed enviou para si mesmo uma fita de cinco polegadas. A caixa permanece fechada e o está na fita é desconhecido.

Fonte: O GLOBO