sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Carnaval: Livro “Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba” ganha versão atualizada



Corriam os preparativos para o Carnaval de 1980, e o Império Serrano defenderia o enredo “Império das ilusões”, inspirado no livro “Visão do paraíso”, do sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, sobre o imaginário fantástico dos colonizadores quando chegaram ao Brasil. Responsável pelas crianças, que representariam os sacis, a diretora da ala infantil Rachel Valença estava inconsolável. Como a escola enfrentava muitas dificuldades financeiras naquele ano, não sobrou dinheiro para comprar a pequena alegoria que completaria a fantasia improvisada dos meninos: um pequeno cachimbo verde.

— Eles estavam loucos para brincar com o cachimbinho, que estava no croqui da fantasia. Eu fiquei muito constrangida quando entreguei a fantasia na véspera do desfile, ao ver tantas crianças decepcionadas — conta Rachel, memorialista oficial da agremiação, que ainda chora com a história que usa para ilustrar a importância que o Império Serrano tem na sua vida. — No dia seguinte, pouco antes do desfile, chega um menino com caixas de papelão. Sem que ninguém pedisse nada, o pai dele tinha notado a tristeza das crianças no dia anterior e virou a noite esculpindo e pintando 50 cachimbos de argila. Naquele momento eu entendi o que era ser um imperiano. Aquele homem se sentiu responsável pela escola e fez o que pôde para ajudar. Percebi que nunca poderia me afastar daquele lugar, porque assim como ele, eu também haveria de dar algo em troca a uma escola que tanto me fazia feliz.

Rachel deu. No ano seguinte, 1981, publicou o livro que é tido como uma bíblia das escolas de samba cariocas, o “Serra, Serrinha, Serrano: o império do samba”, pesquisa dela e do marido, Suetônio Valença. Primeiro trabalho a contar a história de uma agremiação com farta documentação histórica, a obra, que estava esgotada, acaba de ser reeditada pela Record com mais 36 carnavais incluídos. Depois do lançamento no fim de semana na quadra da escola, haverá outro hoje, na Travessa de Botafogo, às 19h.

— Nunca parei de arquivar a história do Império, de gravar entrevistas com os baluartes que iam envelhecendo. A vida toda quis publicar a segunda edição deste livro — conta Rachel, abrindo os armários de casa, em Laranjeiras, para mostrar o museu que mantém reportagens, fotos, croquis e depoimentos separados em pastas verdes, divididos por ano (na porta do apartamento, há uma bandeira imperiana estendida). — Meu objetivo, além de contar a trajetória desta escola, era registrar a história dos anônimos que também construíram esse império, mas não ficaram famosos como Dona Ivone Lara ou Silas de Oliveira.

Gente como a passista Soninha Bumbum, considerada uma das mais completas dançarinas do carnaval carioca, que superou o feito de Nininha da Mangueira, mito de geração anterior. Se Nininha tinha a habilidade de, em meio à evolução do samba, mexer uma nádega enquanto a outra ficava parada, Soninha foi além, revertendo a contração muscular de uma nádega para outra.

Ou Mestre Faísca, que de tão entranhado na escola, já era ritmista aos 12 anos e diretor de bateria... aos 15. Aos 16, criou a bateria mirim da Império do Futuro, e aos 18, ganhou o primeiro Estandarte de Ouro.

— O Império está na série A há oito anos, muito porque contraria a lógica das escolas de samba tradicionais. A escola tem vida social e cultural o ano inteiro, não tem patrono, e mantém eleições diretas para a presidência de três em três anos, diferentemente de muitas escolas. Aquelas pessoas prezam a convivência, e conviver é uma forma de afastar essa dor terrível da diáspora — ressalta a pesquisadora, ex-vice-presidente e hoje uma das integrantes da Velha Guarda, vestindo a camisa do samba de 2017, “Meu quintal é maior do que o mundo”.

PASSADO CONSERVADO E APOSTA EM INOVAÇÕES

Há ainda outros predicados que fazem o livro ir além de uma história de um grupo de pessoas, sendo um documento fundamental da memória da cultura brasileira. Fundado como um motim de estivadores, que não reconheciam as decisões ditatoriais do então presidente da escola Prazer da Serrinha, criando a própria agremiação, em 23 de março de 1947, o Império praticou e conservou manifestações como o jongo; consolidou o modelo de samba-enredo tal qual conhecemos hoje, com clássicos como “Aquarela Brasileira” (1964), de Silas de Oliveira ou “Bum bum paticumbum prugurundum” (1982), de Aloísio Machado e Beto Sem Braço. E também foi a escola que criou inovações como os destaques nos desfiles e a primeira a ter uma mulher autora de um samba-enredo — Dona Ivone Lara, com Silas de Oliveira e Bacalhau, “Os cinco bailes da história do Rio” (1965), outra joia sempre incluída nas listas de melhores sambas de todos os tempos.

Escola que estreou ganhando o desfile de 1948, e os três seguintes, de 1949, 1950 e 1951, o Império é, para o historiador Luiz Antonio Simas, que assina o prefácio, “o ‘Menino de 47’, filho do encontro entre a sabedoria ancestral africana e o poder de organização de um sindicato de trabalhadores, temperado pelo desejo de liberdade de jovens sambistas da Serrinha e do seu terreiro de axé”. Ou como resume Capoeira, integrante da Velha Guarda:

— O Império Serrano é a única família brasileira em que todos seus integrantes estão vivos, e sempre estarão.

Texto de 
MARIANA FILGUEIRAS PARA O GLOBO